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Festival 3i Nordeste: “A mais revolucionária das dicas é ter uma ideia”

por | nov 23, 2022

Por Laura Martiniano, Universidade Católica de Pernambuco (Unicap)

O Recife recebeu, no último sábado (19), a edição Nordeste do Festival 3i, realizado na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Durante todo o dia, estudantes e profissionais da região participaram de palestras e oficinas sobre temas ligados ao jornalismo independente, passando pela sustentabilidade das organizações, coberturas temáticas, distribuição de conteúdo e novos formatos. 

Logo no início da manhã, os interessados em empreender participaram da oficina “Como tirar uma ideia do papel e transformá-la numa iniciativa de jornalismo?”. A proposta era discutir sobre como aproveitar as oportunidades, superar os desafios e tirar as principais dúvidas de quem está começando. A mediação foi do jornalista Anderson Menezes, da Agência Mural, que iniciou a conversa apresentando a proposta e os participantes: “A ideia hoje é que a gente faça um papo leve e divertido. Na faculdade a gente já assiste muita aula, então aqui planejamos uma conversa”. 

Após a apresentação inicial, Anderson recebeu a jornalista Isabelle Maciel, uma das idealizadoras e fundadoras do Tapajós de Fato, veículo jornalístico independente criado em agosto de 2020, na cidade de Santarém, no Pará. “Na pandemia, os conflitos da minha região estavam muito mais latentes. Ficamos preocupados e queríamos fazer alguma coisa. No início pensávamos em pautas locais, que de uma certa forma chamavam atenção para o nosso veículo, porque as pessoas de lá não estavam acostumadas com isso”, comentou.

Convidados reunidos para a mesa-oficina "Como tirar uma ideia do papel", durante o Festival 3i Nordeste. Foto: Morgana Narjara dos Anjos

Convidados reunidos para a mesa-oficina “Como tirar uma ideia do papel”, durante o Festival 3i Nordeste. Foto: Morgana Narjara dos Anjos

Isabelle contou sobre os desafios enfrentados por ela e pelos outros dois fundadores em busca de recursos para manter a iniciativa: “Durante seis meses, trabalhamos sem receber nada. Depois, começamos a investir em editais e, após a chegada dos primeiros recursos, largamos tudo para nos dedicar ao projeto”.

O projeto e a equipe cresceram e, atualmente, o Tapajós de Fato possui 17 integrantes. O grupo é diverso, jovem e engajado nos movimentos sociais locais. O veículo conta com um site de notícias e reportagens e uma série de podcasts. Além disso, os profissionais ministram oficinas de formação em comunicação popular em aldeias e comunidades e prestam assessorias voluntárias para organizações. “Ao longo desse trajeto, e até hoje, as parceiras que a gente fez com organizações e movimentos sociais foram fundamentais. Não é só sobre dinheiro. Nós levamos a comunicação com muita resistência para a nossa região”, disse Isabelle.

Após a apresentação de Isabelle Maciel, foi a vez da jornalista Juliane Aguiar apresentar o coletivo Retruco, iniciativa que nasceu de um grupo de estudantes da Universidade Federal de Pernambuco que, em 2018, se inscreveu em um edital da Agência Pública. Após a aprovação, os membros viajaram para Salvador para elaborar uma reportagem abordando violência policial gravada pelo celular. 

Hoje, o grupo se dedica a trazer o protagonismo da região Nordeste, a partir de um ponto de vista questionador. O projeto trabalha por meio de ciclos de produção, que funcionam quando a equipe se inscreve em editais para produzir reportagens especiais. Com o financiamento desses editais, todos os custos de elaboração e pagamento dos funcionários são supridos. “A gente queria se comunicar com o Nordeste e fugir da concentração de mídia no Sul e no Sudeste”, contou Juliane.

A Retruco é um veículo voltado para o público jovem e 100% digital. Juliane e a equipe perceberam que a juventude tinha muito acesso à informação, mas dificuldade na hora de se aproximar das notícias. A ideia era trazer essa aproximação e experimentar novos formatos. “A gente tinha medo de experimentar e nosso público não gostar. Um exemplo foram lives, ficamos nos perguntando se ia dar certo, mas investimos e deu”, confessa a jornalista. 

Por fim, Rafael Duarte, fundador da Agência Saiba Mais, apresentou o site sediado em Natal, no Rio Grande do Norte. Ele já havia trabalhado em três veículos tradicionais da cidade e não estava satisfeito com a imprensa tradicional. “Eu me questionava muito sobre as pautas, porque não me via representado”, contou ele. A ideia era defender os direitos humanos e a democracia.

A Saiba Mais nasceu em 2017, no meio de uma crise. De acordo com Rafael, dez veículos jornalísticos foram extintos entre 2009 e 2019 no Rio Grande do Norte. Apesar disso, a vontade de criar falou mais alto. “O mais revolucionário é ter uma ideia”, contou o jornalista. Atualmente, a equipe possui oito jornalistas e é gerida por Rafael. O empreendedor também questionou a grade dos cursos de jornalismo, que normalmente não possuem cadeiras voltadas para a gestão.

Rafael aconselhou aos participantes que, ao iniciar um veículo independente, busquem um público alvo. “A gente precisa analisar sem preconceito as sugestões e críticas porque é muito importante entender o que o nosso público quer. Sua audiência é fundamental para sustentar o seu projeto”, disse. Ainda, ele orientou a buscar por financiamento em editais e não ter vergonha de pedir: “Nesse ecossistema de jornalismo digital e independente, há uma palavra que une todas as organizações: solidariedade. Diferentemente da mídia tradicional, que tem muita competitividade, a gente se ajuda demais”.

Para finalizar a oficina, Anderson abriu a conversa para perguntas do público. Entre as dúvidas, estava “como lidar com a questão jurídica dentro do jornalismo independente?”. “Como a gente teve a sorte de logo no início fazer parcerias com organizações, eles falaram sobre a importância do apoio jurídico. Mesmo sem poder pagar advogado, existem organizações que defendem nossas questões”, respondeu Isabelle. 

Em mais uma rodada de questões, como conciliar o projeto com o trabalho e as outras demandas. Isabelle tirou a dúvida: “Quando iniciamos, fomos com todo o gás, mas precisamos priorizar nosso trabalho e começamos a publicar com menos frequência. Nosso site ficou fora do ar por um ou dois meses, porque acabou do dinheiro, só publicávamos em algumas coisas nas redes sociais. Com a ajuda de organizações, conseguimos pagar cinco meses do domínio do site, por isso, ajuda é fundamental.”

Após a oficina, os palestrantes falaram sobre suas impressões sobre a mesa. “A gente vê o material, as matérias, as reportagens, mas não sabe o que está por trás. Acho que essa conversa engrandece muito”, comentou Rafael Duarte. “Essa troca é uma forma de levar nosso trabalho adiante e de conhecer outras iniciativas e fazer um intercâmbio, uma parceria”, falou Isabelle. 

Juliane e Anderson também comentaram sobre sua experiência.”É uma oportunidade de criar relações, trocar conhecimento e experiências. Acho que a gente só cresce quando aprende com as experiências das outras pessoas”, contou a criadora da Retruco. “Eu acho que a ideia era trazer essa experiência para que os estudantes de jornalismo que querem fazer uma organização possam ter inspiração e apoio para fazer acontecer”, finalizou o jornalista da Agência Mural.

*Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i Nordeste entre a Ajor e a Unicap (Universidade Católica de Pernambuco).